Cônsul: “Voo direto Vancouver-Brasil é uma das prioridades”

Crédito: Fotografia Básica / Getty Images

Na segunda de uma série de entrevistas exclusivas para o Jornal Brasil Vancouver, o Cônsul-Geral do Brasil em Vancouver aborda a relação bilateral Brasil-Canadá, incluindo o comércio entre as duas nações, o potencial turístico do país para os canadenses, além da possibilidade de um futuro voo direto entre Vancouver e o Brasil.

Por fim, o diplomata brasileiro fala sobre as consequências do chamado “êxodo brasileiro”, ou o crescente número de brasileiros que deixam sua terra natal em busca de novas oportunidades fora do país. O entrevistado discorre sobre este tema sob a perspectiva do Brasil e também sobre como lidar com esta “diáspora brasileira” no exterior. Leia, na íntegra, a entrevista com o Cônsul Renato Mosca:

JORNAL BRASIL VANCOUVER: Como o senhor avalia a relação entre Brasil e Canadá hoje em dia, sob diversos aspectos?

RENATO MOSCA: As relações entre o Canadá e o Brasil remontam a 1866, quando o Canadá abriu um consulado no Rio de Janeiro. O Brasil e o Canadá partilham muitos valores centrais comuns, tais como a democracia, a segurança, a sustentabilidade, os direitos humanos e a prosperidade económica e social. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, ambas as nações lutaram lado a lado durante a campanha italiana. Em 1941, o Brasil abriu a embaixada em Ottawa, e o Canadá, no Rio de Janeiro em 1944.

Hoje, o Canadá tem além da embaixada em Brasília, consulados-gerais em São Paulo e Rio de Janeiro, escritórios comerciais em Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre. O Brasil mantém consulados-gerais em Montreal, Toronto e Vancouver. Entre os temas centrais da relação bilateral encontram-se parcerias em educação, ciência, política agrícola, tecnologia e inovação. São relações ótimas e com grande potencial ainda inexplorado.

Entre os temas centrais da relação bilateral [Brasil-Canadá] encontram-se parcerias em educação, ciência, política agrícola, tecnologia e inovação.

Renato Mosca

JBV: Que aspectos tornam o Brasil um parceiro comercial interessante para o Canadá, e como esta relação deve se desenvolver nos próximos anos?

RM: Além das relações políticas fluidas e convergentes e do comércio significativo e ainda muito promissor, quero destacar que a educação continua a ser uma força motriz no aprofundamento da relação Brasil-Canadá. 

Em 2019, havia 14 560 estudantes brasileiros no Canadá com licenças de estudo e aproximadamente 25,000 estudantes participavam de cursos de curto prazo de idioma. O número total de brasileiros que estudaram no Canadá em 2019, incluindo os que seguem estudos de curta duração que não requerem autorização de estudo, é estimado em 40,000, fazendo do Canadá um destino internacional de peso para os estudantes brasileiros.

Além disso, o Brasil é o maior beneficiário do Programa de Líderes Emergentes do Canadá nas Américas, e as associações educativas canadenses são muito ativas no Brasil – inúmeros acordos assinados com entidades governamentais e universidades brasileiras. Há dez anos, em abril de 2012, o então governador-geral do Canadá liderou missão de cunho educacional ao Brasil juntamente com mais de trinta reitores de universidades canadenses, o que resultou na assinatura de 75 acordos no valor de quase 17 milhões de dólares.

Pode-se afirmar que a educação contribuiu imensamente para uma parceria forte e dinâmica entre o Canadá e o Brasil. Uma maior colaboração na educação é benéfica para ambos os países, pois cria ligações duradouras entre jovens, profissionais, empresas e instituições, ajuda a promover conhecimento e compreensão mútuos e expande as oportunidades de turismo e intercâmbio de viagens.

Tem também um impacto muito positivo sobre as economias de ambos os países. As parcerias internacionais no domínio da educação beneficiam estudantes para a vida profissional num mundo cada vez mais globalizado. A presença e interação com estudantes internacionais na sala de aula traz muitas experiências significativas e amplia a visão do mundo.

O Brasil é o terceiro parceiro comercial do Canadá nas Américas, após os EUA e o México. É também o décimo investidor no Canadá. Em 2019, o volume de investimentos diretos brasileiros no Canadá foi da ordem de 15,4 bilhões de dólares.

O Brasil é o terceiro parceiro comercial do Canadá nas Américas, após os EUA e o México. É também o décimo investidor no Canadá. Em 2019, o volume de investimentos diretos brasileiros no Canadá foi da ordem de 15,4 bilhões de dólares.

Renato Mosca

JBV: O Brasil não costuma ser a primeira opção de destino internacional para o turista canadense. Com a recente desvalorização do real frente ao dólar, o senhor acredita que este possa ser um bom momento para promover o Brasil como opção de viagem ao público local? Existe algum projeto em curso neste sentido?

RM: Não há dúvida de que o turismo canadense é importantíssimo para o Brasil. Se por aqui se vende um produto de inverno – são muito frequentes as publicidades nesse sentido –, o Brasil tem uma marca internacional de país tropical, acolhedor e múltiplo em seus destinos turísticos, que incluem praias e balneários, montanhas, ecoturismo, cidades coloniais, metrópoles e, não esquecer da nossa porta de entrada, o Rio de Janeiro e o carnaval.

É espantoso o quanto ainda é limitado o turismo estrangeiro no Brasil, não é exclusividade de canadenses. O maior contingente de estrangeiros a visitar o Brasil provém de países do Cone Sul e da vizinhança sul-americana. É preciso um esforço crescente e coordenado do governo brasileiro para vender a “marca Brasil” para o turista estrangeiro.

Cônsul-Geral Renato Mosca (Crédito: Embaixa do Brasil em Liubliana / Facebook)

JBV: A Metro Vancouver é um dos principais polos econômicos do Canadá e o aeroporto internacional (YVR) o principal do oeste do país. Ainda assim, ao contrário de Toronto e Montreal, Vancouver não dispõe de voo direto para o Brasil – tampouco para a América do Sul.  São Paulo e Rio de Janeiro já foram citados na mídia como possíveis destinos de um eventual voo entre YVR e América do Sul, mas nada de concreto foi realizado.

Na sua visão, estabelecer esta ligação aérea direta entre o oeste canadense e o Brasil seria benéfico economicamente para ambos os países? Na condição de representante dos interesses do Brasil e dos brasileiros na região, o senhor pode ou pretende buscar avançar este tema junto às autoridades canadenses?

RM: Esta é uma das prioridades, e já estamos conversando com as Câmaras de Comércio e com a Air Canada para retomar esse projeto. No passado, houve iniciativas muito promissoras que por muito pouco não resultaram na abertura de voos diretos entre Vancouver e São Paulo.

Estamos trabalhando para recolocar o assunto na pauta do consulado, de modo a ampliar as oportunidades de turismo e facilitar o comércio. Não há dúvida de que existe ampla demanda reprimida que se vai mostrar no momento em que se abrirem voos diretos. Além disso, Vancouver tem muito potencial para ser ‘hub’ de passageiros com destino à Ásia.

Eu não tenho dúvida de que voo direto com o Brasil é uma questão de tempo, de amadurecimento da ideia e de esforço de todos. Claro que se trata de decisão empresarial, mas é preciso testar, ainda que se comece com um ou dois voos semanais. A realidade vai-se impor mais cedo ou mais tarde, é preciso manter o tema visível.

No passado, houve iniciativas muito promissoras que por muito pouco não resultaram na abertura de voos diretos entre Vancouver e São Paulo. (…) Eu não tenho dúvida de que voo direto com o Brasil é uma questão de tempo, de amadurecimento da ideia e de esforço de todos. Claro que se trata de decisão empresarial, mas é preciso testar, ainda que se comece com um ou dois voos semanais.

Renato Mosca

JBV: O número de imigrantes brasileiros na Metro Vancouver tem crescido bastante nos últimos anos, segundo dados oficiais. Se para cada brasileiro que deixa seu país natal, a ida para o exterior é pautada normalmente na busca por uma melhor qualidade de vida, por outro lado, na perspectiva do Brasil, a perda é considerável, seja na força de trabalho ou potencial econômico.

 Segundo dados do próprio Ministério das Relações Exteriores, o número de brasileiros vivendo no exterior saltou de 1,898.762 em 2012 para 4,215.800 hoje —dados consolidados a partir de informações coletadas pelos consulados em 2020. Ao que o senhor atribui este forte movimento migratório?

RM: Posso responder em dois níveis. No que diz respeito especificamente ao Canadá, há uma campanha profissional de atrair jovens do mundo inteiro que venham estudar, trabalhar e mesmo viver neste país. No Brasil, o Canadá é visto como um país de oportunidades, um país culturalmente diverso e com o olhar para o futuro. Muitíssimos jovens – e, mais recentemente, famílias inteiras – têm buscado o Canadá como opção para desenvolver seus interesses e talentos.

No nível geral, o avassalador acesso à informação, a globalização das cadeias produtivas, as facilidades de comunicação e transporte e agora o trabalho remoto são facilitadores para os fluxos migratórios. No mundo inteiro as pessoas estão cientes da viabilidade de deixarem seus países e buscarem outra vida alhures.

Não é só no Brasil. Eu era embaixador na Eslovênia até recentemente e pude comprovar como esse fenômeno se dá fortemente na Europa, jovens e profissionais dos Bálcãs migrando para a Europa Central, e desta região para os países mais ricos da União Europeia, como Alemanha, França e Reino Unido antes do Brexit.

Êxodo brasileiro exterior canada vancouver
Êxodo brasileiro. Crédito: Leo Patrizi / Getty Images

JBV: Qual é o prejuízo estimado para o Brasil, com tamanha perda de mão de obra e bens financeiros? O que o país tem feito para estancar esta “debandada de cérebros” para o exterior?

RM: De fato, por outro lado, é lamentável essa perda. É difícil quantificar concretamente que prejuízo para um país como o Brasil causa a saída de seus cérebros e talentos. Sempre será um prejuízo para qualquer país, mas temos definitivamente de fazer um pacto nacional para aprimorar o sistema educacional, dar acesso aos jovens de todas as classes sociais a ensino de alto padrão e fomentar o mercado de trabalho qualificado, de modo a conter essa evasão. É preciso que o Brasil trace uma política clara e rapidamente.

É difícil quantificar concretamente que prejuízo para um país como o Brasil causa a saída de seus cérebros e talentos.

Renato Mosca

JBV: Quais são os planos do Ministério das Relações Exteriores para lidar com esta enorme “diáspora brasileira” no exterior?

RM: Diante desse fato concreto que se verifica há pelo menos duas décadas, o Itamaraty adotou políticas muito eficientes de prestação de serviço e de assistência às comunidades brasileiras mundo afora, nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, entre outros. A rede consular foi ampliada, e as responsabilidades são crescentes no atendimento de brasileiros que optaram por uma experiência no exterior.

É fundamental que o estado brasileiro continue sempre à disposição e presente na vida desses brasileiros e dos muitos brasileirinhos e brasileirinhas que já nasceram no exterior, buscando manter a nacionalidade, o interesse pela cultura e o idioma nas novas gerações.

E isso não é tudo, há em muitos postos projetos sérios – e penso que temos oportunidade de fazer na jurisdição deste consulado-geral – de mapeamento da diáspora acadêmica e científica, importante passo para identificação do perfil dos profissionais brasileiros atuantes nas áreas de ciência, tecnologia e inovação.

No ano passado, na Eslovênia, desenvolvemos esse trabalho em parceria com as embaixadas brasileiras em Viena e Bratislava. Esses profissionais, a despeito de viverem no exterior, têm muito – e estão verdadeiramente dispostos – a contribuir com suas experiências.

É fundamental que o estado brasileiro continue sempre à disposição e presente na vida desses brasileiros e dos muitos brasileirinhos e brasileirinhas que já nasceram no exterior, buscando manter a nacionalidade, o interesse pela cultura e o idioma nas novas gerações.

Renato Mosca

► Não deixe de ler também a primeira e terceira partes desta entrevista. 

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